Televisão de Cachorro


Outro dia eu fiquei namorando do lado de fora uma adega, que nem cachorro em frente de maquina de frango de padaria de chinês. Sabe aquelas que se via em padaria de cidade pequena, que mais parece uma geladeira de bar, com os frangos no espeto rodando?

Pois bem, lá estava eu, como um cachorro magro, hipnotizada com as mãos na parede de vidro e boqui-aberta com as garrafas em display.

Me senti um vira-lata. Um vira-lata de sorte, pra dizer a verdade :-)

srsrsrrs … me entreti tanto com aquela visao do paraíso que acho que mapeei a vitrine.. srsrsrsr

Havia uma Krug 76 (acho que era 76..) a esquerda no alto

..um Cheval Blanc (98 creio?) bem na minha cara

..um Margaux (2003 ?) a direita

..três Petrus la embaixo

..um Le Pin alí atrás

..e mais uma pá de Champagne Non-Vintage aqui e ali.

Me senti as Portas do tempo do Hedonismo.

Não era cobiça, era desejo de se entregar aos prazeres engarrafados do outro lado do grosso vidro.

 

Hipnotizada estava eu a ponto de só despertar quando escutei um garotinho perguntar pra mãe:

_Mãe essas garrafas são de chocolate??

Não precisa falar que ela saiu puxando o menino de lado.. srsrrs

..e eu?

..eu vou falar o quê..??  ( suspiros  srsrsrsrs)

os morangos da minha infancia

Hoje faz frio.
É inverno no norte da Europa, claro que faz frio.
A chuva deu o ar de preguiça que nos deixou em casa.
O dia vira noite cedo.
Sim, claro, é inverno.

_ Filha quer um chá..??
_ Sim quero, posso escolher..?? Quero este aqui ó..

Era uma infusão de rosas orgânicas que ganhei de uma amiga, com a promessa de me fazer dormir mais cedo.
Sim, tenho amigas romanticas a esse ponto.

Aquele chá de rosas era novo para mim, mas as memórias que me vieram a boca não.
Eu nunca havia tomado chá de rosas..?? ..pouco provável.
O que há de tao familiar nele..??
Mais um gole acorda meu paladar, memorias lá-de-muito-mais-que-muito-longe.
Morangos da minha infância!
Um soriso vem ao meu rosto.
Que memoria feliz essa, que alegra minha alma.
Noto com espanto que aquele chá tinha o gosto dos morangos da minha infância.
Coisa que eu já havia encontrado em alguns vinhos.

Fui buscar um caderninho meu de alguma degustação de Roses da Provance.
Batata!
Lá estava, descrito com alegria: morangos da minha infância, com um longo final quase doce e bem suave, elegante.

Voltei ao chá e à conversa com minha filha.
Sirvo mais um pouco do bule.
Sim, eu sou do tipo que usa bule de chá e xícara com pires.
Um aroma bem fraquinho sobe da xícara e, mais uma vez toma minha alma.
Na boca as lembranças dos moranguinhos, dos chás com minha avó, a brisa da sombra de um mais fim de tarde de verão.

Alí estava eu e minha filha conversando a mesa.
Eu contando dos finais de tarde tomando chà com minha avó, escutando as histórias de sua meninice.. dos chás que tomei com minha mãe, lhe contando meu dia, minha dúvidas.

Mais um gole do chá.. mais um sorriso.. mais memória vindo pelo paladar.
Me dei conta que, agora, alí estava eu ouvindo o dia de minha filha.
Sim, era eu que lhe falava de minha meninice.
Fiquei orgulhosa de mim por um minuto.
Dali a pouco, estava eu orgulhosa de minha filha estar sentada a mesa tomando chá, no fim de tarde com sua mãe, conversando como uma mocinha do alto de seus seis anos.
Mais um pouco daqueles morangos da minha infância, que mais pareciam felicidade caindo de um pote de chá, vieram a minha boca.

_Mãe.. chá de rosas tem cheiro de rosas e não de morangos.
Clack ..Caiu a ficha.
Quando eu era menina, no nordeste do Brasil, não havia morangos.
Ou pelo menos não assim, tão facilmente, para povoar minha memoria de infância.
Meu lado pragmático comecou a montar um quebra-cabeças de lembranças muito-mais-que-muito-antigas.
Fui buscar no fundo de uma gaveta a toalha que minha avó forava a mesa pro chá. Um linho branco com moranguinhos bordados, de uma delicadeza que não existe mais.
Forrei a mesa, arrumei o bule as xícaras..
Foi quando escutei de minha filha:
_ Mãe, agora eu sei do quê falou antes..
.. o chá tem mesmo gosto de moranguinhos.

Mais tarde, a noite, abrirei um Rose de Provance.
L.