Luxo Emocional

Fazia muito calor, talvez o dia mais seco do ano , e ainda sim caminhava pelas ruas.
Parou na padaria. O pão quentinho cheirava a conforto.
O cafezinho do portuga era o que faltava pra se sentir em casa novamente.
Estava determinada a fazer uma higiene mental naqueles poucos dias, de volta aquela cidade louca.
Resolveu não pensar. Era melhor não cutucar a saudade, assim tao de perto.
O lugar já era bem conhecido. Havia uma intimidade com as ruas, barulhos e cheiros da feira.
E andar por ali a fez voltar ao tempo descompromissado.
Assim descobriu seu maior luxo- a liberdade de poder não ser nada, de não ter nada, de não ir a lugar algum.

Era apenas uma caixa, nada mais que uma caixa, ali inerte em cima da mesa, só para cutucar a saudade com vara curta.
Os aromas que não estavam na caixa invadiram sua memória e tomaram seu corpo de assalto.
Foi difícil sentir o passado e não vê-lo.

Resolveu não ligar.
O que iria escutar, uma desculpa qualquer ou um compromisso inadiável?
Era melhor não telefonar.
Buscou o número na agenda torcendo pra não encontrar.
Estava decidida a não ligar.
Procurou nos contatos de email, torcendo para não ser mais o mesmo.
Não, não iria telefonar de modo algum. Estava decidido!
De repente, percebeu: não lembrava mais o numero.
Sim, não poderia mais encontrar.
Não, não era mais possível.
E agora, o que fazer com toda aquela confusão sentimental?
O corpo gritava por matar a saudade, as memórias saltavam aos cheiros e gostos.
Já havia decidido que estava tudo esquecido e, ainda sim, petulante pensamentos a lhe rondar.

Quem nunca tem tempo acostuma-se a usar deste luxo.
Há sempre algo urgente, importante e inadiável.
De repente o vôo atrasa e ficou alí, refém numa cadeira, cercado de conhecidos estranhos.
Caminhou puxando a malinha para esticar as pernas.
Voltou ao celular.
Ah esse brinquedinho, seu fiel companheiro de cativeiro logístico.
Não, não encontramos amigos quando temos tempo de espera.
Amigos encontramos apenas quando estamos correndo para embarcar.
Já leu a revista, já respondeu os emails, já mapeou a fauna local flutuante.
Ainda sim se vê em alguns olhos perdidos no tédio, puxando malinhas pelo saguão.
Todas aquelas pessoas conectadas com o mundo não se conectam.

O tempo anda a passos lentos, se arrasta com preguiça.
Sentou-se.
Aceitou que não ligaria. E assim, como de supetão, lembrou-se do número.
Falta pouco, melhor esperar…

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